A extinta arte de administração

14/12/07 at 11:04 (Uncategorized)

Eu acho hipócrita falar que a CPMF é “o único imposto justo” e etc, e a gente continua pagando todo os outros impostos. Aliás, o que a gente mais faz é pagar imposto, normalmente 60% do salário de uma pessoa é perdido com imposto. É muito fácil administrar o país assim, toda vez que vc precisa de um investimento não tem problema, cria uma taxa provisória contra ataques do Groo, e tá resolvido. E quando vão cortar um, já vem o discurso: “Não, esse não, esse é justo, é essencial para o País continuar”. Como o país era gerido antes da CPMF? Se o imposto do cheque era o único justo cortem os outros. Mas não adianta só ficar falando: “Mas na reforma tributária tuuuuuuudo vai mudar, sua vida será muito mais simples do que você jamais imaginou”. Não. Não. Chega. Em nenhum momento ninguém fez nenhum plano caso a cpmf fosse negada. E os ascensoristas de 5 mil reais por mês? E os operadores de xerox que ganham 5 mil reais por mês? E os deputados/vereadores/etc que ganham aposentadoria integral, que não é pouca, depois de 8 anos de trabalho? E os milhares de “cargos de confiança” criados sem concurso público que fazem sei lá o que? A minha mãe trabalhou por 23 anos na Unicamp e foi aposentada compulsoriamente por chegou nos 70 anos e ficou com metade do sálario antigo como aposentadoria, depois de investir a vida inteira dela ensinando os outros a ler.
Aí, quando a cpmf é vetada, ao invés de falar que vão cortar gastos, o eles dizem que vão cortar a maior parte dos investimentos na saúde. Por que a nossa saúde pública é realmente fabulosa, eu acho que vou cancelar o meu convênio privado e passar a usar o SUS, se eles estão no ponto de não fazer novos investimentos, quer dizer que o negócio não tem como melhorar. É uma vergonha. mas não tem problema, daqui a 6 meses, ressucitam o imposto do cheque e todo mundo já vai ter esquecido desse assunto.

Em resposta ao texto abaixo:

13/12/2007

A extinta

Soninha Francine

Escrevi uma dúzia de textos e duas de anotações sobre a CPMF. Como nenhum
deles foi concluído, acabei não publicando. O assunto não passou totalmente
em branco porque o Victor Barau, que trabalha no gabinete, escreveu uma
coluna sobre CPMF para o site (www.soninha.com.br). Não vou recuperar tudo
que escrevi, mas não quero deixar de falar sobre isso. Como agora tenho um
tempinho, recuperei um dos rascunhos, de dois meses atrás (foi logo depois
da manifestação contra a CPMF no Anhangabaú).

O título era: “Como é fácil falar mal de imposto”

“Pergunta aí: alguém quer pagar imposto?
Nããão.
Nenhum. Alto ou baixo, municipal ou federal, provisório ou permanente.

(Ou quer, “desde que os serviços públicos correspondam etc”. Depois voltamos
a isso).

Então as pessoas não querem que haja Estado?
São anarquistas?
São super liberais, totalmente a favor da livre iniciativa, da competição,
das liberdades individuais?
Nããão.

As pessoas são a favor da competição, desde que não percam. Da sua liberdade
individual, mas não da dos outros.
A maioria, dizem as pesquisas, é contra a despenalização do aborto, a
descriminalização da maconha e de outras drogas, não? O Estado tem de
impedir as pessoas de se doparem!
Ah, e as pessoas esperam que o Estado responda, se encarregue, se
responsabilize pelos pobres. Pelos perdedores. Pelos “não-capazes”.
Uma das sócias da Daslu chegou a dizer isso em entrevista à Folha – “Eu
tenho de me ocupar dos pobres? Eu não sou governo!”.

Os pobres são problema do governo…
Então tem de ter governo.
Que tem de arrecadar.

Eu ODEIO pagar imposto mal empregado. Receber um serviço horroroso, ver o
desperdício com a máquina, a burocracia, mordomia e corrupção.
Mas sei que imposto é necessário e que tem imposto justo.

Quando surgiu a CPMF, morri de raiva. Um imposto do qual a gente não tem
como escapar. Porque não dá para não tirar dinheiro do banco. Não dá para
não fazer cheque.
E é para melhorar a saúde?? A gente já não paga muito?
Ah, vai sanear as contas públicas para sobrar mais dinheiro para a saúde?
Já vi: vai para o buraco sem fundo.

Pois bem: mudei de idéia.

Hoje em dia, entre todas as taxas, impostos, contribuições, acho que um dos
melhores, se não o melhor, é a CPMF.

Por vários motivos:

1.A alíquota é baixinha.:o) Para cada 100 reais sacados da sua conta
corrente, você paga R$0,38. Mil reais, R$3,80.

2.Ele realmente não tem escapatória. Ou seja: se vale para mim, vale para
todo mundo. Movimentou a conta no banco? Fica retido lá. Não dá pra
disfarçar, ocultar, sonegar.
Na verdade, pode escapar dele quem usa pouco os serviços bancários.
Convenhamos, algo muito mais comum entre pobres do que entre ricos.

3.A gente sabe quanto está pagando. Você sabe quanto de ICMS, ISS, IPI você
pagou na compra de um sabão em pó? Não. Mas sabe quanto ficou no banco para
a CPMF.

4.Além de não poder ser sonegado, a menos que você faça tudo com dinheiro
vivo, a CPMF é super dedo-duro de outras sonegações e movimentações ilegais.
Porque pelo valor pago em CPMF por um cidadão, calcula-se o volume de
dinheiro movimentado em suas contas. E se ele movimentou muito dinheiro mas
declarou pouco no Imposto de Renda, por exemplo, alguma coisa está errada.

Portanto, eu sou a favor de MANTER a CPMF – e de cortar OUTROS impostos.
Como o próprio IR, que é cruel demais com o assalariado.
Reforma tributária não é só “cortar imposto”. É racionalizar, simplificar,
tornar mais transparente, prática e lógica a arrecadação – e mais justa.
Isso significa cortar de uns E aumentar de outros. Tem gente (e tem
atividade) que tem de pagar menos imposto; tem gente que tem de pagar mais.
Quem ganha dinheiro em cima de dinheiro em cima de dinheiro, por exemplo –
diferentemente de quem exerce uma atividade produtiva, que gera postos de
trabalho, que contribui para o bem-estar da sociedade, etc.

Mas a coisa mais fácil é subir lá na tribuna e procurar os microfones de
rádio e TV para gritar contra a CPMF. Como se dinheiro de imposto fosse para
o presidente e os governadores; como se dinheiro para “o governo” não
significasse dinheiro para o Estado investir. Como se o sustento do próprio
Parlamento não se desse com dinheiro de impostos (e ai de quem falar em
cortar gastos no Senado, por exemplo… Os senadores não querem nem tornar
públicas as despesas do Gabinete!). Como se simplesmente eliminar um imposto
fosse muito bom para a população.

Demagogia é um dos venenos mais insidiosos na política. É dizer o que o povo
quer ouvir, mesmo que seja mentira, balela, groselha, irresponsabilidade.
Tem demagogia na mídia, no governo e na oposição. Que, em uma situação como
essa, se esbalda. Falar mal de imposto dá retorno garantido!

Para aprovar a sua prorrogação, o governo pode “convencer” a base
governista — que pode impor suas condições “republicanas”, como “mais um
ministério, a presidência de uma estatal, vinte cargos de segundo escalão e
o troco do busão”. Ou negociar, em alto nível, com a oposição. O PSDB, por
exemplo, deveria ter a decência de discutir o projeto e exigir correções ou
melhorias. “Sim, entendemos a importância de se prorrogar a CPMF, mas
exigimos a previsão de uma queda gradual na alíquota, a isenção para faixas
de renda mais baixas ou a diminuição de outros impostos”. Até que foi para
esse lado, mas quando os tucanos começaram a negociar, foram achincalhados
na imprensa, como se fossem entreguistas, traidores, interesseiros. Quer
dizer: a se julgar pelas opiniões publicadas, debate na política não pode
ser verdadeiro, tem de ser Fla X Flu mesmo, oposição tem de dar cacete e o
governo que se vire para conquistar apoios. Nem percebem que o custo desse
apoio é muito pior para a sociedade, e que se pode acabar aprovando o texto
do governo sem nenhuma melhora”.

Pois é, agora sabemos que a CPMF não passou. E tem email dizendo: “Veja como
votou o seu senador! Lembre disso na próxima eleição!” – sugerindo, claro,
que senador bom é o que votou contra a prorrogação.

Se é horrível ver dinheiro mal gasto? Claro que é. Enfurecedor. Mas tem de
ter dinheiro para fazer o serviço (público) direito, e a gente tem de se
esforçar seriamente para que assim seja (e não cuidar só do seu lado e que
se dane o resto). E por mais que não pareça, tem muito dinheiro sendo gasto
pelo setor público para manter funcionando centenas de coisas que fazem
parte da nossa vida tão entranhadamente que a gente nem percebe.

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Guerra de Fronteira

2/12/07 at 17:36 (Uncategorized)

Li hoje um texto excelente do Luís Fernando Guimarães, na coluna dessa quinta-feira do Estadão. Estou colando o texto aqui na íntegra, e um link para o Zero Hora, aonde achei na internet.

Artigo no Zero Hora

29 de novembro de 2007

var nomet = “Luis Fernando Verissimo”; var nome_autor = “Luis Fernando Verissimo”; if (nomet == nome_autor) { var nome = ” Luis Fernando Verissimo”; } else { var nome = “Luis Fernando Verissimo | Luis Fernando Verissimo”; } document.write(nome); Luis Fernando Verissimo

  • Guerra de fronteira

    As fronteiras ideológicas da Guerra Fria atravessavam países e continentes, separando o “mundo livre” do outro e dos simpatizantes do outro. A não ser que visitasse um país comunista ou freqüentasse algum “aparelho”, você nunca as cruzava. Sequer as via. Independentemente das suas simpatias ou eventuais rebeldias, vivia dentro de um perímetro comum bem definido. Com o fim da Guerra Fria, as fronteiras ideológicas desapareceram e nos vimos dentro de outra macrogeografia, a das fronteiras econômicas. Estas são visíveis demais. Separam bairros, dividem ruas, são fluidas e ondulantes – e no Brasil você as cruza todos os dias. Mais de uma vez por dia você passa por flóridas, suíças, bangladeshes, algumas bolívias… E em cada sinal de trânsito que pára, está na Somália.

    É impossível proteger estas fronteiras como se protegiam as outras. A grande questão do novo século é como defender seu perímetro pessoal da miséria impaciente e predadora à sua volta. Os americanos não podem ajudar desta vez, a fronteira maluca ziguezagueia dentro dos Estados Unidos também. No Brasil da criminalidade crescente e da bandidagem organizada, as fronteiras econômicas são, cada vez mais, barricadas e terras de ninguém. No fim é uma guerra de contenção, de proteção de perímetros. E os excessos cometidos são defendidos com a velha frase, que foi o adágio definidor do século 20 e ganha força no século 21: os fins justificam as barbaridades. As chacinas de lado a lado, o poder de pequenos tiranos com ou sem uniforme de aterrorizarem o cotidiano de todo o mundo, tudo é permitido porque é uma luta de barreira, onde se repelem ou se forçam tomadas de território, como em qualquer fronteira deflagrada. Cara a cara, nação contra nação.

    Há um sentimento generalizado, mesmo que não seja dito, que a maior parte da população do mundo é lixo. Excrescência irrecuperável, condenada a jamais ser outra coisa. Esta não é certamente uma constatação nova e nem qualquer utopista ultrapassado chegou a pensar que o contrário era completamente viável. A novidade é que hoje se admite pensar o mundo a partir dela. Já se pode dormir com ela. A ordem econômica mundial está baseada na inevitabilidade de a maior parte do planeta ser habitada por lixo irreciclável. Ser “politicamente correto” hoje é dizer o que ninguém mais realmente pensa – sobre raças, sobre os pobres, sobre consciência e compaixão – para não parecer insensível, mas com o entendimento tácito de que só se está preservando uma convenção, que a retórica dos bons sentimentos finalmente substituiu totalmente os bons sentimentos. É a intuição destes novos tempos sem remorso que move o entusiasmo crescente do público com a truculência policial na nossa guerra do dia-a-dia. Nem tem sentido discutir se as vítimas mereceram ou não. Não existe lixo inocente ou culpado. O que está no lixo é lixo. Demasia. Excesso. Excrescência.

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